É viciada em estética?

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Os sinais de alarme a que deve estar atenta

A linha que separa o retoque pontual da adição aos tratamentos de estética é muito ténue e, por isso, os especialistas já falam de uma nova classe de dependentes, os estéticaólicos.

Descubra se a sua relação com a estética é saudável ou se está em vias de se tornar viciada.

«Aos seis anos, os meus pais deram-me uma Barbie, que serviu para me imaginar numa vida cheia de glamour e num lugar distante da quinta onde vivia. Quando, anos depois, recebi uma pequena herança, comecei a submeter-me a tratamentos de estética com os quais acabei por tornar realidade as minhas fantasias infantis». Estas são as credenciais que fizeram com que a norte-americana Cindy Jackson ostentasse o último recorde do Guiness por ser a mulher que se submeteu a mais intervenções estéticas em todo o mundo: nada mais, nada menos do que 47.

Na verdade, trata-se de uma mulher que se reconstruiu a si mesma, que fez disso não só um estilo de vida como também um modo de promoção: tanto o seu livro Living Doll, como o seu site (www.cindyjackson.com), no qual se pode até encontrar um esquema corporal em que se especificam todas as intervenções a que se submeteu, transformaram-se em pontos de peregrinação de milhares e milhares de pessoas que desejam mudar a sua vida através do bisturi.

Pode ser viciada se…

Quer sempre mais no que se refere a tratamentos estéticos.

  • Nunca fica satisfeita depois dos retoques ou intervenções realizados.
  • Sente muita ansiedade quando os resultados da intervenção começam a retroceder, por exemplo, no caso do Botox, ou quando o cirurgião a aconselha a não continuar a submeter-se a mais intervenções.
  • Quer submeter-se a todo o custo a operações complicadas apesar de conhecer o risco que implicam para a sua saúde.
  • Tem alterações no estado de ânimo por não conseguir alcançar os seus objetivos físicos depois de seguir as recomendações do cirurgião.
  • Quer parecer-se fisicamente com alguém e pede ao cirurgião que copie os traços dessa pessoa.
  • Baseia o valor pessoal de uma pessoa apenas na parte física.

Veja dois perfis da estéticaólica

 

Mulheres entre os 18 e os 25 anos, com alguma preocupação do tipo peito pequeno, nariz proeminente… Têm baixa auto-estima, poucas habilidades sociais para se relacionar com as pessoas por causa do complexo que têm; possuem poucas relações interpessoais e apresentam traços de carácter obsessivo, com tendência para ver as coisas a preto e branco.

Mulheres entre os 35 e os 50 anos, que estejam a atravessar ou tenham passado por uma crise vital, com um nível de exigência muito elevado, um estilo de pensamento rígido, muito perfeccionistas, geralmente muito competentes no seu trabalho e com um poder de compra médio-alto. São bem sucedidas socialmente, mas vivem com uma grande obsessão: travar a passagem dos anos.

A era dos estéticaólicos

Exagero ou realidade? De momento, é uma tendência em crescimento, tanto que acabou por impor uma nova designação: a de estéticaólicos ou viciados em estética. Alguns especialistas já falam de uma nova patologia que afeta fundamentalmente mulheres.

O alarme foi dado pelos próprios cirurgiões plásticos que afirmam que cerca de 40% dos pacientes se operam para resolver complexos causados por problemas emocionais.
A obsessão em não envelhecer está a transformar-se em algo fundamental para algumas pessoas e numa espécie de moda a nível mundial que faz com que a maior parte da população esteja mais preocupada com o seu físico do que em aprender coisas interessantes, ser feliz ou encontrar um bom trabalho.

Estes circunscrevem a sua sensação de felicidade ao grau de beleza fictícia percebida após as múltiplas operações ou retoques, através dos quais acreditam travar a passagem do tempo.

Vício ou afeição?

De acordo com Fernando Magahães, psicólogo no Centro Educacional da Boavista (Porto) «muitas pessoas têm uma preocupação saudável com o corpo e com a sua aparência, mas há outras que não conseguem deixar de pensar obsessivamente nestas questões».

As características da viciada em estética são:

Se uma paciente já foi operada em várias ocasiões, sobretudo, num curto espaço de tempo, insiste em aperfeiçoar o tratamento ou intervenção que realizou, mesmo que esteja bem, pode ser suspeita de adição à cirurgia.

No caso dos tratamentos estéticos não invasivos (como o botox), os indícios são menos evidentes, já que têm um efeito limitado no tempo e precisam mesmo de renovação periódica.

A adição surge quando, depois de uma operação, a pessoa não se sente satisfeita com o retoque ou a intervenção e quer mais, porque o problema não está no plano físico, mas sim no plano emocional.

As pessoas viciadas em estética não têm travão, nunca ficam contentes depois da intervenção. Perante a recusa dos cirurgiões em continuar a operá-las, começam a mentir para conseguir alcançar os seus objetivos, pelo que acabam por ter um aspecto artificial que as transformam em alguém que acaba por ser rejeitado. Veja-se o caso de Michael Jackson.

O que acontece quando o cirurgião se recusa a operar

Quando o especialista se recusa

O cirurgião plástico tem um papel muito importante e deve advertir os casos em que os indícios de adição são muito evidentes, e recusar-se a realizar a intervenção, mesmo que seja delicado dizer a um paciente, que provavelmente conhece por já o ter operado, que não o vai tratar mais e que o melhor que tem a fazer é procurar a ajuda de um psicólogo ou de um psiquiatra.

Quanto a tratamentos para esta situação, segundo Lima Magalhães, a terapia cognitivo-comportamental tem proporcionado bons resultados. «O primeiro passo da terapia consiste no reconhecimento, por parte do paciente, de que se trata de um transtorno e que há tratamentos que o curam», explica o psicólogo.

«Então, o paciente é educado sobre o TDC e sobre a influência das crenças nas emoções e comportamentos, identificando os erros de pensamento e a veracidade das auto-avaliações acerca da sua aparência. Na etapa seguinte, ensina-se o paciente a lidar com o embaraço,
a culpa e a vergonha, modificando as formas automáticas de pensar as situações sociais e as avaliações das outras pessoas e de si próprio», refere.

«Nesta fase são testadas as crenças das pessoas. À medida que estas crenças são modificadas, o indivíduo é gradualmente exposto a situações socialmente embaraçantes e aprende técnicas de prevenção de resposta e de relaxamento, para diminuir os seus comportamentos obsessivos», acrescenta ainda o psicólogo.

Eles também… mas menos!

Apesar do problema incidir mais sobre mulheres, já se começam a registar casos de adição masculina.
É necessário ter em conta que a pressão mediática para se ser belo e magro ainda continua a ser muito maior para as mulheres do que para os homens.

«Uma variação deste transtorno, nos homens, é a dismorfofobia muscular, uma preocupação com o tamanho do corpo. Alguns homens, sendo na realidade muito mais fortes e musculados do que a média, vêem-se fracos e magros, sentindo vergonha do seu aspecto», comenta o psicólogo Lima Magalhães.

Texto: Madalena Alçada Baptista

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