Roberta Medina: “Eu acho que o RIR ativa o lado bom do ser humano”

Retratos Contados (R.C): Os Retratos Contados apresentam-se como um projeto único, diferenciador e inovador uma vez que nos focamos numa área diferente do habitual. O nosso objetivo é falar das ligações entre avós e netos, a importância dos avós na vida dos netos e vice-versa. O que acha de um projeto como este?

Roberta Medina (R.M): Acho giríssimo! Porque é uma forma de homenagear os nossos antepassados e explicar de onde vem o nosso DNA. Eu sempre que falo com a minha avó e ela me elogia eu digo ”Olha, mas eu sou fruto de você também!” Há sempre uma escadinha entre nós. Os nossos pais herdam diretamente muitas características dos pais deles, nós acabamos por herdar características dos nossos pais mas também dos nossos avós. É fácil o que é que dos avós que vem pra gente. É genético, muito mais forte que qualquer conceito.

R.C: Através do site Retratos Contados falamos também de envelhecimento ativo, do abandono dos idosos…Quando olha para o nosso país como vê a população mais velha?

R.M: Olha, acaba por ser uma população muito solitária, muito desprotegida, muito desvalorizada em muitas situações, ouve-se muito disso e de facto é muito angustiante. Se a gente pensar que exatamente quando você já conquistou tudo, quando você já viveu tudo, quando você já aprendeu e ensinou tudo você fica sozinho e abandonado é extremamente cruel. Depois de ter sido mãe fiquei mais sensível com as crianças, mas eu acho que os idosos sempre mexeram mais comigo. Os idosos sempre me sensibilizaram mais do que até as crianças, porque a criança ainda não sabe se está bom, se está ruim, ela não tem a referência, mas quem já viveu… Eu acho que é um dom envelhecer bem! E é um dom, porque certamente é muito difícil.

R.C: Comparando a realidade de Portugal com a do Brasil encontra semelhanças?

R.M: Eu não vejo no Brasil tanto esse assunto de abandono (o que não quer dizer que não exista), eu vejo mais a conversa dos idosos terem que ter atividades, de a sociedade se preparar melhor para atender aos idosos, encontro muito mais actividade do que o facto de estarem abandonados em casa. Engraçado, é uma realidade que lá não se fala tanto, mas não quer dizer que não exista. Talvez no Brasil isso também exista, mas o Brasil, é mais coletivo na sua convivência. Um amigo me chamou a atenção, eu até então não tinha dado conta disso, aqui em Portugal é difícil entrar na vida das pessoas mas uma vez que você entra, você está lá dentro. No Brasil você entra e fica e fica, é um trabalho constante, mas o brasileiro é muito coletivo, é muito dado, é muito atento ao outro, é muito aberto ao outro.

R.C: Que recordações é que a Roberta tem dos seus avós? Sei que tinha um avô que era do Porto e vivia na Rua da Cedofeita.

R.M: É verdade. Era pai da minha mãe ele faleceu eu tinha 11 anos então eu tenho pouca memória dele. A minha mãe disse que ele nunca perdeu completamente o sotaque de português, mas eu não tenho sequer essa recordação. O nome deste avô era Hernâni, mas a gente o chamava de vovô Pipoca, e nem sei porque esse nome. Os meus pais e meus avós tinham casas numa cidadezinha do interior do Rio, e a gente vivia lá os 3 meses de férias escolares. Então os pais largavam a gente lá, (a nossa casa era uma na frente da outra na mesma rua) e ai meus avós é que ficavam sempre com a gente. O Vovô Pipoca avô era muito tranquilinho.

R.C: E sobre a avó materna, da avó Célia?

R.M: Minha avó Célia era mais dura, era uma família totalmente matriarcal. Ela é que sustentou a família, meu avô ficou doente e deixou de trabalhar muito cedo, então ela mantinha a família toda. Era muito guerreira, muito trabalhadora. Trabalhou como guia turístico, trabalhou de costureira fazia vestidos de noite, entre outras coisas. Ela fazia o que fosse para poder manter a casa. Chegou a manter uma família de 9 pessoas morando juntas. Vovô Pipoca era quase hippie na atitude, muito zen, não se aborrecia com nada. Minha mãe era muito apaixonada por ele. Engraçado que com minha avó era uma relação mais gato e rato. Mas a minha história com eles era literalmente de crescer juntos. Eram eles que tomavam conta, os meus pais viajavam muito a trabalho, meu pai e minha mãe acompanhava e a gente ficava com eles sempre. Eram eles e a madrinha da minha mãe que era uma grande amiga do meu avô, desse avô e que virou minha madrinha por eleição também. Os meus padrinhos são os meus outros avós, mas avô é avô, essa coisa de botar avô de padrinho para mim não faz o menor sentido, avô é avô não é padrinho .Eu acabei adoptando ela que era uma terceira avó ali no grupo.

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