Yolanda Lobo: “Aprendi como é importante mostrarmos o nosso afeto”

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Retratos Contados: Fale-nos dos seus avós paternos e maternos. (De onde eram, onde viviam, o que faziam profissionalmente…)

Yolanda Lobo: Do lado do meu pai conheci apenas a minha avó Guilú (Guilhermina). Senhora muito forte, independente, pouco dada a mimos e abraços de afeto… Com um temperamento difícil, tinha-nos a todos sob uma vigilância severa e crítica. Era uma avó diferente e nós, os três netos, não admitíamos que ela pisasse em ramo verde em relação à nossa mãe que, com todo o carinho, tratava dela. Foi o seu amparo diário mesmo quando cegou completamente.

Os meus avós maternos eram o oposto. Conheci-os em 1969, por altura do Inverno e do Natal. Tinha 12 anos. Viviam em Pangim (Goa) e eram a personificação do Amor. Desejosos de abraços, mimos, beijos, inventavam tudo para satisfazer os filhos (11) e netos (dezenas) que nesse ano se juntaram em Goa, vindos de todo o planeta, para assistir ao casamento da última filha. A minha avó Leucádia e o meu avô Manu (Manuel) andavam de mão dada o dia todo. O meu avô reclamava que a mulher já não lhe dava os mesmos mimos porque andava numa roda-viva a mimar os filhos, genros, noras, netos… Á noite, enquanto todos tocavam vários instrumentos e faziam uma serenata, ele agarrava-se à minha avó e dançava com ela, bem juntinho, olho no olho… Um exemplo de amor e afeto. A minha avó Leucádia, doméstica, era uma mulher cultíssima. De Portugal sabia tudo quanto à política e a economia. O meu avô era engenheiro civil. Falava-nos pouco do seu trabalho, do seu reconhecimento público enquanto profissional. Muito modesto, amante da justiça e da retidão, vivia sobretudo para a família e a sua mulher. Levava-lhe flores e elogiava-lhe o penteado ou o jardim que ela cuidava com amor, enaltecia os seus cozinhados e a forma como se vestia… Ele muito alto, ela muito baixa. Faziam o par perfeito!

RC: Que importância tiveram os seus avós na sua vida?

Yolanda Lobo: Tudo o que vi e acompanhei da vida dos meus avós maternos foram um marco na minha vida enquanto mãe e agora vou senti-lo enquanto avó. Com os meus 12 anos apenas e durante uns 2 a 3 meses, assisti a um hino à família, ao amor, ao companheirismo, à cumplicidade… Aprendi como é importante mostrarmos o nosso afeto em casa, aos amigos, aos vizinhos. Como um sorriso pode mudar o dia de alguém, como a educação e as boas maneiras fazem a diferença.

Voltei a encontrar a minha avó Leucádia em Lisboa, nos conturbados anos pós 25 de Abril e fiquei impressionada pela sua atualização em relação à política de então. Sabia o nome de todos os políticos e fazia perguntas sobre cada um. Depois de umas semanas por aqui disse-nos simplesmente: “Preciso voltar para Goa porque o Manu deve estar a sentir muito a minha falta. Já chega!”.

Nunca mais a vi, mas sei de cor cada um dos seus traços, dos sorrisos de ambos e sobretudo do olhar ternurento para com todos.

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